Recentemente, a doutora em psicanálise
Maria Rita Kehl, em entrevista à revista baiana Muito (edição 25/10), citou brevemente sua vivência durante regime militar brasileiro (1964-1985) e o "clima" que envolvia boa parte daquela geração em movimentos de esquerda e causas sociais.
Uma observação é que, segundo ela,
"o Brasil teve muita pressa em apagar seu passado", o que permite que esse tema ainda seja incômodo pela falta de esclarecimento sobre o que de fato ocorreu no período.
Outro dado ainda mais curioso que Kehl acrescenta é o fato de que esse é o
único país da América Latina no qual a violência policial continuou evoluindo após um estado autoritário. Mais do que calejados, já tivemos duas experiências históricas desse tipo no século XX.
Coincidência ou não, também estamos bem distantes do comportamento adotado pelos vizinhos Argentina,
Uruguai e Chile, que não tiveram tanta resistência em abrir seus arquivos e punir torturadores. Esse último, por exemplo, o fez até mesmo com o seu ex-general-presidente Augusto Pinochet (1973-1990).
A fala da psiquiatra me lembrou as recentes propagandas do
Portal Memórias Reveladas, que têm sido veículadas na televisão (clique
aqui para ver o vídeo).
Antes tarde do que nunca, quem sabe o projeto da
Secretaria Especial de Direitos Humanos - criada no governo Lula e muito criticada pelos setores mais conservadores da nossa política (muitos dos quais compactuavam com o governo da época), e encabeçada por figuras-chave como o ex-militante
Paulo Vannuchi, não consegue fazer o que esperam há mais de 40 anos as famílias das centenas de brasileiros desaparecidos.
O que elas exigem é o direito de, ao menos, poder velar o corpo do ente querido e ver o agressor cumprir pena pelo seu assassinato, uma palavra até eufemista diante da normalidade com que eram praticadas as torturas.
Para quem quiser saber mais do assunto, é legal visitar o site lançado há pouco tempo. E, ainda mais interessante, os que tiverem documentos que contribuam com informações sobre o período é só mandar para o email memoriasreveladas@arquivonacional.gov.br
Anos traumáticos? Sim. Mas é pior se ignorá-los. É uma grande oportunidade para ajudar a esclarecer uma página da nossa história que simplesmente foi destruída para impedir o acesso e a consciência crítica das gerações futuras. Acho que começo a acreditar na democracia brasileira...